Além dos limites do pensamento…

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Caros amigos e amigas,

Normalmente, em vez de estar a escrever este artigo, a esta hora às 2a feiras, estaria no meu treino de Kung Fu que tanto aprecio. Desde Outubro do ano passado que iniciei esta arte marcial com o intuito de aperfeiçoar as minhas habilidades para o Tog Chöd e esta decisão partiu de uma lesão que tive no retiro de Tog Chod 2 na Áustria há precisamente um ano atrás. Não foi fácil “digerir” uma ruptura de ligamento que quase que me impediu de continuar o retiro e que só passou depois de 6 meses de trabalho árduo. Mas serviu para tomar a consciência de que como professora e formadora de professores de Tog Chöd eu tinha a obrigação de aperfeiçoar o meu corpo para dar um bom exemplo aos alunos. Sim, porque é mesmo esse o exemplo que o mestre Tulku Lobsang nos dá, inspira-nos em todos os momentos, e como sua aluna só tenho de seguir as suas pegadas até onde e o melhor que posso a cada momento. E o nosso melhor está sempre longe do que o nosso pensamento alcança…

Kung Fu nos dias de hoje não é tanto um trabalho corpo-mente de mestre e aluno, mas integro-o, como já disse, como um treino de força e resistência do corpo e mente grosseira para a exigência dos cursos e formações de Tog Chöd.

Muitos saltos, pontapés, murros para me tornar muito forte e resistente… A mente e o corpo subtil trabalho-as com as preciosas ferramentas que o mestre Tulku Lobsang me ensinou. E de todas as diferentes ferramentas que já experimentei desde os meus 16 anos, estas são as que realmente me transformaram e ainda me transformam e, por isso, são as que eu abraço inteiramente com todo o meu corpo, palavra e mente.

Mas agora perguntam, porquê que a águia (sim, em Abril passei a ter o título de águia verde no Kung Fu!) não está a voar no seu treino de Kung Fu hoje? Pois bem, no passado sábado tive uma nova grande lição da vida à qual estou muito grata… Na 6a feira depois do meu treino de Kung Fu senti dor no meu quadricep, e, como já não doía, não segui o conselho do treinador e não coloquei gelo quando cheguei a casa. Ora no sábado, no treino intensivo de Lung Ta e Tog Chöd que estava a orientar, logo no terceiro ou quarto passo largo e poderoso da corrida de Lung Ta o malandro do músculo contraiu de tal forma que parecia que todo o universo caía em cima de mim naquele milésimo de segundo. A dor foi fortíssima, mas o meu primeiro pensamento foi “não posso desistir agora e estragar o treino aos alunos” e o segundo pensamento foi “a mente tem de ser mais forte que a dor, custe o que custar” e assim foi… não só corremos durante 15 min, como ainda praticámos Tog Chöd durante 90min sem parar. Os saltos já não os conseguia dar, os movimentos já não eram profundos, o suor frio escorria, as lágrimas quase que saltavam para tolerar a dor física e o sofrimento emocional e tudo o que recordava eram os momentos no retiro de Tog Chod 2 na Áustria em que Tulku Lobsang gritava com toda a compaixão de um grande mestre: “Força!, a vossa mente não tem limites, saiam dos limites, das fronteiras, passem a fronteira, Não desistam! Nunca!”. Assim fiz, honestamente não por mim, mas pelos 11 alunos que estavam ali à espera do meu exemplo, à procura de beberem um pouco da minha força para que os inspirarem a também irem além dos seus limites. Essa motivação deu-me poder para agir e o que beneficiei com isso não tem preço.

Mas a loucura sem sabedoria é perigosa e, por isso, fico muito feliz por, após essa hora de agonia, na pausa do intervalo, me ter rendido aos limites do meu corpo samsárico e ter aceite a ajuda dos alunos para me aliviarem aquele sofrimento. Porque de facto a guerra já estava ganha, ir mais longe só era alimentar o ego.

Chega a um momento que precisamos de ter a consciência que já não estamos a cortar os medos, mas apenas a alimentar as expectativas… e nesse momento também temos de ter a sabedoria para as saber cortar. Só assim é que faz sentido todo este trabalho. Porque o nosso objectivo ao sermos praticantes do dharma é cortar os nossos medos e as nossas expectativas na totalidade. Pois a nossa existência está inteiramente condicionada por estes medos e expectativas. E como é fácil cair nos extremos… porque a nossa mente é feita de extremos! O caminho do meio é tarefa muito árdua, requer muitas lições. Por isso, receber assim lições tão eficazes como relâmpagos são bênções para mim… néctar que nutre o coração!

E quando nestes momentos de limite o mestre e todos os budas, yoguis e yoguinis do passado que nos inspiram, se apresentam na nossa mente, a sua força e poder penetra tão profundamente o nosso coração, que este é o momento de reconhecer que não há qualquer mestre ou qualquer buda fora de nós. Essa força e esse poder não é mais que a nossa força e o nosso poder! Se a devoção for totalmente pura, nesse momento, reconhecemos que a natureza da nossa mente não é diferente daquela que nos inspira. E o mais bonito de tudo é reconhecer que nunca foram e serão diferentes, apenas a nossa visão dualista vê o mestre fora de nós mesmos. E porquê que isso acontece? Porque num momento de total devoção em que o nosso ego se rende completamente, a parede ilusória que nos separa do mestre, derrete-se no coração como um floco de neve se derrete na água. Como é lindo e como faz sentido!

Ontem quando estive a orientar o workshop O Poder da Meditação na Saúde e na Cura pude ainda com mais entusiasmo, confiança e fé – de quem já provou mais um pouco o seu sabor -, transmitir que de facto o amor é a melhor medicina! O pensamento muda a realidade e, por isso, reduz muito a dor e os problemas; a imaginação transforma a realidade e, por isso, ajuda a purificar a dor e os problemas; mas o amor, o amor mais puro e incondicional, corta completamente a raiz da dor e do sofrimento… esse é o caminho dos corajosos! É assim que nos transformamos em guerreiros do amor à velocidade da luz!

Esses guerreiros nunca perdem… mas também nunca ganham… porque ganhar e perder são apenas conceitos que não existem fora das nossas emoções. Mas sentem-se sempre vencedores, porque além dos medos e das expectativas nunca há nada a perder ou a ganhar!

Para esses guerreiros não existe o difícil porque o amor elimina o esforço e tudo se torna fácil. Também não existe o feio, porque aos olhos do amor tudo se apresenta perfeito.

Sem nunca fazerem nada para serem especiais, estes guerreiros tornam-se realmente especiais. Sem nunca mudar nada, a mudança acontece… e como bons guerreiros abraçam essa mudança, sem a rejeitar e sem a segurar!

BodhiSoha!

Com todo o meu entusiasmo e dedicação,

Ana Taboada

Ana's Logo with Circle V2b

2 thoughts on “Além dos limites do pensamento…

  1. Olá Ana!
    Mais uma vez, adorei ler as suas palavras.
    Participei nos “Dias de amor e saúde tibetanos” com Tulku Lobsang na Maia e, entretanto, li o livro “Amor e saúde” que lá adquiri e, cada vez mais, me sinto fascinada pelos seus ensinamentos e tento pô-los em prática. Sei que há um longo caminho a percorrer mas sinto-me muito motivada e vou tentar empenhar-me. Gostaria de aprender mais sobre os ensinamentos, Lu jong e Tog shod, por isso, vou estar atenta aos eventos que vão surgindo e tentar conjugar com a minha disponibilidade (de tempo e financeira;) ).
    Também acho fascinante o percurso de vida da Ana. Muitas vezes, também me apetecia mudar de profissão e dedicar-me a várias coisas que neste momento fazem mais sentido para mim. Mas, quando se tem um emprego minimamente estável, é difícil dar o “salto”. Por isso a admiro tanto!
    Um beijinho
    Vânia Sousa

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