Mover (com)paixão…

 

Mover (com)paixão...

 

Caros amigos e amigas,

 

Na passada 5a feira, à semelhança de outros anos, fui a uma escola dar uma aula de yoga para comemorar o dia da actividade física. Mas este ano ao aceitar o convite decidi propor não ir simplesmente dar uma aula, mas sim fazer uma palestra com prática, aproveitando que o tema proposto pela escola este ano seria a importância do bem-estar da mente na saúde.

 

O publico foram crianças e adolescentes dos 11 aos 16 anos e professoras. Sim, eram apenas mulheres, já que infelizmente os homens portugueses ainda pensam que estes temas não lhes dizem respeito. Talvez porque infelizmente em Portugal a palavra yoga tem uma conotação feminina. O que eles provavelmente não sabem é que grandes mestres, como por exemplo Buda, foram grandes yoguis. Bom, mas isto é outro assunto a ser abordado noutro momento mais apropriado…

 

O que tentei mostrar nesta sessão foi a importância do Yoga – incluindo obviamente a meditação, pois sem esta não existe yoga – como uma ferramenta vital para a nossa sociedade moderna. E como é possível, mesmo com tanto stress e obstáculos, conseguirmos atingir uma mente feliz.

 

Como costumo dizer aos meus alunos, neste momento, mais que simplesmente ensinar, pretendo inspirar. Então, isso passa por dar o meu exemplo, ao tentar mostrar que é possível a mudança. É possível alcançarmos um corpo saudável e uma mente feliz mesmo que se nasça no ocidente numa família tradicional, se cresça com os problemas e dilemas próprios da infância e adolescência, se viva paixões, desgostos, crises de ansiedade, esgotamentos, se tenha problemas de saúde, económicos, etc…

 

Por isso, muito brevemente contei a minha história: como conheci o yoga aos meus tenros 16 anos e como me salvou de ficar limitada toda a vida, uma vez que nessa jovem idade foi-me detectada uma dupla escoliose muito grave; como me ausentei desse mundo que me fascinava e me envolvi 100% no mundo da investigação e do trabalho obsessivo, ganhei uma gastroenterite e, mesmo assim, como consegui sair desse fosso, diria quase depressão, quando voltei a encontrar o mundo do yoga e da filosofia oriental.

 

Sei perfeitamente que não é fácil viver nos dias de hoje, numa sociedade dominada pela competição, agressividade, exigência e conflitos. Mas eu sou um exemplo que mesmo assim é possível – com a ajuda das ferramentas correctas – sermos mais saudáveis não só física, mas também mentalmente.

 

Não é difícil nos dias de hoje, com tanta abundância material, entendermos que os factores externos contribuem muito pouco para a nossa felicidade, já que podemos ser muito ricos e continuarmos na miserabilidade mental. E percebermos que se estivermos bem mentalmente, até a dor a toleramos muito mais facilmente. A questão é mais: por onde começar?

 

No mundo moderno em que vivemos, não é de todo fácil trabalhar directamente a mente. As crianças, os jovens e o mesmo se passa com os adultos, necessitam de começar a trabalhar a mente através do corpo. Não há outra forma, até porque se o corpo estiver saudável é muito fácil de chegar à mente. Corpo e mente são inderdependentes: se um estiver bem vai ajudar o outro a também estar bem!

 

É no corpo que ficam registadas todas as nossas emoções, como que carcaças, registos, em forma de tensões e bloqueios. Por isso, é tão importante o movimento… como costumo dizer aos meus alunos: a vida é movimento, é mudança.

Conforme vamos libertando as tensões no corpo, este vai ficando cada vez mais solto, mais aberto, logo também mais livre… e, automaticamente, isto tem repercussões na nossa mente.

 

É fácil perceber intelectualmente que a vida é mudança, é imprevisível, mas viver de acordo com esse entendimento é que é mais difícil. Com um corpo mais solto e leve, estamos naturalmente aptos a sentir essa pulsação constante e a nos adaptarmos mais facilmente a essas mudanças.

Como bióloga adoro falar de Darwin. Ele dizia que não era o mais inteligente ou o mais forte que sobrevivia, mas sim o que tinha maior capacidade de adaptação. Assim funciona o yoga… coloca-nos desafios para que com as correctas ferramentas (como a respiração, os alinhamentos posturais, etc), possamos manter a mente calma e atenta ao momento presente e, desta forma, possamos, com a prática regular, encara-los com naturalidade. E sempre que cairmos ou não estivermos no nosso melhor momento, devemos aceitar essa aprendizagem, pois são essas “derrotas” que nos fortalecem mentalmente. Essas quedas são os nossos maiores ensinamentos… No fundo, aquele que queremos derrotar é o nosso ego, pois esse é o nosso único inimigo. Mas também é o nosso maior professor! E todo este processo se desenrola em cima do nosso tapete, na nossa prática. É fabuloso!

 

Então, com a prática física de yoga, que na minha perspectiva tem de ter obrigatoriamente desafio, vamos obtendo uma maior capacidade de nos adaptarmos emocional (o que se chama inteligência emocional) e afectivamente (inteligência afectiva) e, portanto, uma maior capacidade de nos adaptarmos às mudanças da vida!

 

O desafio é muito importante, em especial, no mundo moderno dominado pelo comodismo e  facilitismo. É com o desafio que vamos superar os bloqueios da nossa mente e encontrar uma força e coragem interna que desconhecíamos por completo! Também costumo dizer aos alunos, que a vida é um grande desporto radical. É preciso desenvolvermos a atenção plena da mente ao momento presente – mindfulness – para respondermos às situações com os pensamentos, palavras e acções correctas!

 

O desafio obriga-nos a esse esforço constante de manter a mente atenta ao momento presente… esse estado mental é a nossa fonte de coragem e força mental. Deixa de haver lugar para o medo e a insegurança. Deixa de haver lugar para as expectativas ou preocupações. Quando estamos com a mente em atenção plena, os pensamentos acalmam e isto proporciona clareza mental.

 

Focar a mente no momento presente é muito difícil, pois os pensamentos estão habituados a comandar. Podemos sentir que relaxamos o corpo, mas a mente continua a mil à hora… Por isso, o meu Mestre Tulku lobsang diz que bem podemos ir de férias para um hotel luxuoso nas Bahamas receber muitas massagens, mas a mente vai continuar agitada. Claro, que isto ajuda um pouco, mas não é de todo suficiente e a prova disso é que quando voltamos não demora muito tempo para que os problemas voltem a incomodar-nos. É uma ajuda muito temporária.

 

Mas atenção, o que é desafio para mim poderá não sê-lo para outra pessoa. Levantar o joelho até ao nível da cintura poderá ser um grande desafio, enquanto que para outra pessoa é desafio subir até ao nível do peito. Por isso, digo frequentemente nas minhas aulas, o objectivo do yoga não é fazer posturas avançadas, mas sim assumir uma atitude mental de esforço e dedicação para dar o melhor que sabemos e podemos em cada momento. É essa atitude que traz a mudança, não só no corpo, mas principalmente na mente. Mais importante que chegar ao final da postura, é todo o processo até lá chegar. É a atitude mental. E, por isso, se diz que Yoga é uma atitude!

 

Por esse motivo, nas minhas aulas de Pulsar Yoga insisto muito nas transições lentas e graciosas entre as posturas. O próprio Lu Jong (yoga tibetano terapêutico) também explora esse factor, ainda a que a um nível mais elementar.

Para que esse momento lento de transição seja harmonioso e gracioso, o aluno tem de desenvolver a estabilidade do elemento Terra, a leveza do elemento Vento, a fluidez e coesão do elemento Água e o calor interno purificador do elemento Fogo. É nesse desafio físico e mental que purificamos os 4 elementos, para encontrarmos o espaço da sabedoria: a liberdade mental.

 

E depois de se usar o corpo para se chegar a esse estado da mente, então faz todo o sentido parar, deitar ou sentar para relaxar ou, de preferência, para meditar. No final da prática é muito vulgar sentirmos uma imensa satisfação e plenitude, pois finalmente conseguimos relaxar e os pensamentos acalmam. É este o melhor momento para meditar.

 

Na filosofia do Tantra cultiva-se o corpo, porque sabemos que só através da felicidade do corpo é que poderemos chegar à felicidade da mente pura. Usa-se o corpo para transformar a mente! Porque sabemos que se o corpo estiver bem, os canais físicos e subtis também vão estar, logo o vento ou prana vai fluir e, automaticamente, também a mente está bem. Logo teremos muito menos problemas emocionais. Somos mais felizes!

 

Essa felicidade é a compaixão, o amor puro.

A compaixão que falamos habitualmente é muito ao nível do pensamento, muito intelectual. Se a mantivermos a esse nível, nada vai mudar.

Temos de a trazer primeiro ao nível do corpo. É uma compaixão muito grosseira, mas sem esta não chegamos à mais subtil. Tulku Lobsang diz que a felicidade é como o primeiro momento da paixão: os olhos brilham! Se falarmos da compaixão só ao nível da lógica e da razão, os nossos olhos vai ficar sempre mortos, sem brilho! Somos pessoas muito sérias. Os olhos expressam o nosso elemento Fogo e este elemento na sua forma pura é a compaixão.

 

O Pulsar Yoga e o Lu Jong usa o corpo e a compaixão como método. Ainda a um nível muito grosseiro. Mas esta é a forma de chegar ao nível subtil da mente pura. Sabemos que o método não é o objectivo, pois é mentira, é ilusão. Mas também sabemos que só com a forma/método é que chegamos à não-forma, ao espaço. Usa-se este método para sair do pensamento. Usa-se o corpo e a compaixão para realizarmos o amor absoluto, a grande compaixão e a natureza pura da nossa mente!

 

Com este tipo de movimento e práticas, pretende-se não apenas equilibrar os nossos elementos, pois isto significa que obtemos uma saúde e felicidade muito temporária. Mas têm como objectivo principal a sua purificação, isto é, transforma-los nas suas qualidades mais puras, para desta forma alcançarmos uma saúde e felicidade estável.

 

Com toda a minha dedicação e entusiasmo,

Ana Taboada

2 thoughts on “Mover (com)paixão…

  1. Foi com imensa alegria que li este post ,num blog que vou acompanhando regularmente e fiquei muito orgulhosa pois conseguiste resumir tão bem tudo o que disseste na actividade realizada no passado dia 7. Vou partilha-lo com os restantes professores da Escola e esperemos que da próxima vez também estejam presentes alguns homens…poderão ficar sensíveis à mensagem, pois nem todos são tão durões como querem parecer e muitos estarão também disponíveis para este tipo de mensagem e de filosofia de vida.
    Mais um avez, muito obrigado pela tua preciosa e generosa colaboração.

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